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Ives Cavalcante PassosMédico psiquiatra Agendar consulta

Tratamentos

Bipolaridade


Esta página reúne, em linguagem acessível e baseada em evidência, a dúvidas sobre o transtorno bipolar: o que é, quais são os sintomas, quais os tipos e como é o tratamento.

O que é o transtorno bipolar?

O transtorno bipolar envolve alterações no humor que são mais perceptíveis, duradouras e frequentemente mais prejudiciais do que os momentos isolados de tristeza ou de alegria do dia a dia. Ele é caracterizado por episódios de depressão e de mania (ou hipomania) que, em geral, começam na adolescência ou no início da vida adulta.

É importante entender que essas alterações de humor não são falhas de caráter. Elas resultam de mudanças biológicas em áreas do cérebro que regulam o humor — mudanças que respondem a tratamento. O transtorno bipolar é uma doença, assim como a hipertensão ou a asma, e também é crônica: pode recorrer ao longo da vida, com diferentes graus de bem-estar entre os episódios. A diferença é que, aqui, os episódios são muito pessoais: mudam como a pessoa se sente, pensa e age, o que às vezes dificulta reconhecer que aquilo é fruto de uma doença.

O diagnóstico não é feito por exame de sangue ou de imagem. Ele depende de uma entrevista clínica detalhada, conduzida por um profissional experiente, que identifica os sintomas atuais e passados. O DSM-5-TR e a CID-11 oferecem critérios que orientam esse diagnóstico.

A boa notícia é que existem tratamentos eficazes. Com acompanhamento adequado e conhecimento sobre a própria doença, a maioria das pessoas aprende a reconhecer os sinais precocemente e a manter a doença sob controle — como se cada uma se tornasse um cientista de si mesma. Nas perguntas a seguir, explico os sintomas, os tipos e o tratamento.

Quais são os sintomas do transtorno bipolar?

Por ter uma apresentação heterogênea, cada pessoa vive o transtorno bipolar de um jeito. Os sintomas mais evidentes costumam começar na adolescência ou no início da vida adulta. Muitas pessoas relatam que demorou anos até o diagnóstico correto — um estudo mostrou que a média de atraso é de sete anos. Isso é preocupante, porque diagnóstico e tratamento precoces se associam a um curso mais brando da doença. Não é raro o transtorno bipolar ser confundido, no início, com ansiedade, depressão ou transtorno de personalidade.

O transtorno bipolar se manifesta em “episódios”. Para o diagnóstico, é preciso que a pessoa tenha vivido, em algum momento da vida, um episódio de mania ou de hipomania. Quando há apenas episódios depressivos, sem nunca ter havido mania ou hipomania, o diagnóstico é de transtorno depressivo, e não de transtorno bipolar.

Episódio maníaco: um período distinto de humor anormalmente eufórico ou irritado, com aumento persistente de energia, durando pelo menos sete dias, na maior parte do dia. Nesse período surgem três ou mais dos seguintes sinais (quatro, se o humor for apenas irritável): autoestima inflada ou grandiosidade; redução da necessidade de sono; falar mais que o habitual; sensação de pensamentos acelerados; distração fácil; agitação; e envolvimento excessivo em atividades de risco (compras descontroladas, indiscrições sexuais, investimentos imprudentes). Fala-se em mania quando esses sinais são graves o suficiente para prejudicar o trabalho e a vida social ou para exigir internação; pode haver, ainda, sintomas psicóticos, como delírios ou alucinações.

Episódio hipomaníaco: apresenta sinais semelhantes aos da mania, porém mais leves e mais breves (pelo menos quatro dias). A pessoa costuma manter suas atividades, mas quem convive percebe que ela está “diferente” — mais “ligada”, acelerada ou eufórica. Justamente por parecer uma boa fase, a hipomania frequentemente passa despercebida.

Episódio depressivo: a maioria das pessoas com transtorno bipolar também tem episódios depressivos — e, com frequência, a depressão é o primeiro episódio da doença, o que dificulta a diferenciação da depressão unipolar. O episódio depressivo é marcado por pelo menos cinco dos seguintes sinais, por no mínimo duas semanas: humor deprimido; perda de interesse ou prazer; alteração de peso ou apetite; insônia ou sono em excesso; agitação ou lentidão; fadiga; sentimentos de inutilidade ou culpa; dificuldade de concentração; e pensamentos de morte. Ao menos um dos sintomas deve ser humor deprimido ou perda de interesse.

Quais são os tipos de transtorno bipolar?

O transtorno bipolar não é único: reúne apresentações diferentes, que compartilham a alternância de fases de humor. Conhecer o tipo ajuda a orientar o tratamento.

Transtorno bipolar tipo I: definido pela ocorrência de pelo menos um episódio de mania completa ao longo da vida. Episódios depressivos são comuns, mas não são obrigatórios para o diagnóstico.

Transtorno bipolar tipo II: caracterizado por episódios de hipomania alternando com episódios depressivos, sem que tenha havido mania completa. Não é uma forma mais fraca da doença — a carga de depressão costuma ser alta e o risco de suicídio é significativo.

  • Ciclotimia: oscilações crônicas do humor, por pelo menos dois anos, com períodos de sintomas hipomaníacos e depressivos que não chegam a preencher os critérios completos de um episódio, mas que causam sofrimento e prejuízo.
  • Outros transtornos bipolares (especificados e não especificados): quadros que não se encaixam plenamente nas categorias acima, mas que envolvem alterações de humor relevantes e merecem avaliação e tratamento.
  • A definição do tipo é feita pelo psiquiatra ao longo do acompanhamento, à medida que a história de vida e os episódios se tornam mais claros.

Qual é o tratamento do transtorno bipolar?

O transtorno bipolar é uma doença crônica, e o tratamento é contínuo. Mesmo quando a pessoa está bem, mantém-se o chamado tratamento de manutenção, cujo objetivo é controlar os episódios e prevenir recaídas. O tratamento se apoia em quatro frentes que se somam.

1. Tratamento farmacológico

É o pilar do tratamento. Os medicamentos centrais são os estabilizadores de humor — com destaque para o lítio, que tem a evidência mais robusta e é o único com efeito protetor demonstrado contra o suicídio —, além de alguns anticonvulsivantes (como valproato, carbamazepina, oxcarbazepina e lamotrigina) e determinados antipsicóticos (como a lurasidona, lumateperona, cariprazina, quetiapina, aripiprazol, olanzapina, paliperidona, clozapina e risperidona). A escolha e as combinações são individualizadas, conforme a fase da doença, o perfil de sintomas e a tolerância de cada pessoa.

Os antidepressivos, quando usados, exigem cautela: no transtorno bipolar, não devem ser usados isoladamente e costumam ser associados a um estabilizador, pelo risco de precipitar uma virada para a mania e de acelerar o ciclo da doença. A adesão ao tratamento e a continuidade da medicação de manutenção são decisivas para prevenir recaídas.

Quem quiser se aprofundar no assunto, em 2025, em colaboração com diversos clínicos e pesquisadores, publicamos o principal tratado da atualidade sobre transtorno bipolar. O livro Bipolar Disorder: An Evidence-Based Clinical Guide pela editora Springer Nature. Já o livro Latent Bipolar Disorder também publicado pela Springer Nature aborda estratégias terapêuticas para paciente em risco de desenvolver a doença.

2. Psicoterapia

A psicoterapia, sobretudo a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e a terapia focada na família, é um complemento importante à medicação: ajuda a reduzir os sintomas, a diminuir a probabilidade de recaída, a monitorar os sintomas e a melhorar a adesão ao tratamento. O conhecimento sobre a doença, pelo paciente e pela família, permite reconhecer episódios mais cedo.

3. Cuidados com o sono

O sono tem papel central no transtorno bipolar. Noites mal dormidas e mudanças bruscas de rotina podem desencadear episódios. Na prática, alguns hábitos simples ajudam a ter uma melhor noite de sono:

  • Horários regulares, inclusive nos fins de semana. Deitar-se e levantar-se sempre por volta do mesmo horário, incluindo nos finais de semana, é uma das medidas mais eficazes para estabilizar o relógio biológico.
  • À noite, reduzir as luzes e evitar telas nas duas horas antes de dormir, porque a luz das telas atrapalha o adormecer; de manhã, o contrário — expor-se à luz natural logo cedo ajuda a "acertar" o relógio do corpo para o dia.
  • Cuidado com estimulantes no fim do dia. Café, chá preto, chimarrão e refrigerantes com cafeína atrapalham o sono quando consumidos à tarde ou à noite.
  • A cama é para dormir. Evitar usar a cama para estudar, ver TV ou ficar no celular ajuda o corpo a associar aquele espaço ao sono, e não à atividade.
  • Ambiente que convida ao sono — quarto escuro, silencioso e com temperatura agradável.
  • Não levar as preocupações para a cama. Quando há algo pendente rondando a cabeça, uma estratégia simples é anotar para resolver no dia seguinte, em vez de tentar resolver deitado.

4. Mudanças no estilo de vida

Completam o tratamento: evitar álcool e outras substâncias de abuso, reduzir a cafeína, praticar atividade física regularmente, manter uma rotina estável e aprender a lidar com o estresse. Essas medidas não substituem a medicação, mas potencializam seus resultados.

Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, a maioria das pessoas com transtorno bipolar alcança boa qualidade de vida e vê a doença ocupar cada vez menos espaço no dia a dia.

Referências

  1. Passos IC, Berk M, Kapczinski F (eds.). Bipolar Disorder: An Evidence-Based Clinical Guide. Springer Nature; 2025.
  2. Passos IC, et al. Latent Bipolar Disorder. Springer Nature; 2025.
  3. Scott J et al. Acta Psychiatr Scand. 2022;146(5):389-405.
  4. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — DSM-5-TR; 2022.
  5. Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças — CID-11; 2019.

Conteúdo escrito e revisado por Dr. Ives Cavalcante Passos. Última revisão em . Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individual.