O que é a depressão?
A depressão — ou transtorno depressivo maior — é uma doença, e não uma fraqueza ou falta de vontade. Ela decorre de alterações biológicas no funcionamento do cérebro e se manifesta como um período prolongado de humor deprimido e/ou perda de interesse e prazer, acompanhado de outros sintomas, que dura pelo menos duas semanas e traz prejuízo à vida da pessoa.
É diferente da tristeza comum: a tristeza é passageira e proporcional aos acontecimentos; a depressão é persistente, muitas vezes sem causa aparente, e interfere no trabalho, nos relacionamentos e no autocuidado. A depressão costuma ser recorrente, mas é uma condição tratável — a grande maioria das pessoas melhora com o tratamento adequado.
Quais são os sintomas da depressão?
O diagnóstico considera a presença de pelo menos cinco dos sintomas abaixo, por no mínimo duas semanas, sendo que ao menos um deles deve ser humor deprimido ou perda de interesse/prazer:
- Humor deprimido na maior parte do dia (tristeza, vazio, desesperança).
- Perda acentuada de interesse ou prazer nas atividades.
- Alteração do apetite ou do peso.
- Insônia ou sono em excesso.
- Agitação ou lentidão perceptíveis.
- Fadiga ou falta de energia.
- Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva.
- Dificuldade de concentração ou de tomar decisões.
- Pensamentos recorrentes de morte ou ideação suicida.
Sintomas físicos — dores, alterações digestivas, cansaço — também são comuns e às vezes dominam o quadro. Se houver pensamentos de morte ou de suicídio, é importante buscar ajuda imediatamente: no Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Quais são os tipos de depressão?
A palavra “depressão” reúne diferentes diagnósticos, definidos pelo DSM-5-TR, o manual de referência usado em psiquiatria. Os principais são:
Transtorno depressivo maior: é a forma mais conhecida — um ou mais episódios com os sintomas descritos acima. É o que a maioria das pessoas chama simplesmente de “depressão”.
Transtorno depressivo persistente (distimia): uma forma mais crônica e arrastada, com humor deprimido na maior parte dos dias por pelo menos dois anos. Os sintomas costumam ser menos intensos que os de um episódio maior, mas duram muito mais.
Transtorno disfórico pré-menstrual: sintomas marcantes de humor — irritabilidade, tristeza, tensão e ansiedade — que surgem na semana anterior à menstruação e melhoram logo após o seu início.
Depressão causada por outra condição de saúde ou por substâncias: quando o quadro é provocado por uma doença (por exemplo, alterações da tireoide) ou pelo uso ou pela retirada de álcool, medicamentos ou outras substâncias. Nesses casos, tratar a causa faz parte do tratamento.
Além do tipo, o médico também descreve as “características” de cada episódio — traços que mudam a forma como a depressão se manifesta e ajudam a personalizar o tratamento. Entre as mais importantes:
- Características melancólicas: perda intensa de prazer em quase tudo, humor pior pela manhã, despertar muito antes do horário e perda de apetite.
- Características atípicas: o humor ainda melhora diante de coisas boas, acompanhado de aumento do sono e do apetite e de uma sensação de peso nos braços e nas pernas.
- Características psicóticas: presença de delírios (crenças falsas, fora da realidade) ou alucinações (perceber coisas que não existem, como ouvir vozes). Exige tratamento específico e, muitas vezes, mais urgente.
Características mistas: sintomas de aceleração — agitação, pensamento rápido, menor necessidade de sono — ao mesmo tempo que o humor deprimido. É um sinal de alerta, porque pode indicar transtorno bipolar e se associa a maior risco.
- Ansiedade proeminente: tensão, preocupação constante e inquietação acompanhando o quadro depressivo.
- Início no periparto: quando a depressão começa durante a gravidez ou nas semanas seguintes ao parto — é a conhecida depressão pós-parto.
- Padrão sazonal: episódios que retornam sempre na mesma época do ano, mais comuns no outono e no inverno.
Um ponto essencial: nem toda depressão é unipolar (aquela em que existem apenas fases para baixo). Em algumas pessoas, a depressão faz parte de um transtorno bipolar, que também inclui fases de humor elevado ou muito acelerado — e, nesse caso, o tratamento é diferente. Por isso, a avaliação sempre investiga se, em algum momento da vida, houve períodos de euforia, irritabilidade ou energia muito aumentada.
Qual é o tratamento da depressão?
A depressão tem tratamento eficaz, apoiado em quatro frentes que se combinam de acordo com a gravidade e as características de cada caso.
1. Tratamento farmacológico
É o pilar nos quadros moderados a graves. Os antidepressivos de primeira linha incluem os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (citalopram, escitalopram, fluoxetina, fluvoxamina, paroxetina e sertralina), os duais (desvenlafaxina, duloxetina e venlafaxina) e outros (agomelatina, bupropiona, mirtazapina, vilazodona e vortioxetina), com a escolha individualizada conforme o perfil de sintomas, os efeitos colaterais e as condições clínicas de cada pessoa. O efeito costuma aparecer em algumas semanas, e a medicação deve ser mantida pelo tempo adequado — nunca suspensa por conta própria. Em casos que não respondem bem, há estratégias adicionais, como ajustes de dose, associações e, quando indicado, a escetamina/cetamina, a estimulação magnética transcraniana ou a eletroconvulsoterapia.
Essas recomendações seguem diretrizes internacionais (CANMAT 2023) e as diretrizes brasileiras de tratamento farmacológico da depressão.
2. Psicoterapia
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a psicoterapia com maior evidência para a depressão. Pode ser usada isoladamente nos quadros leves a moderados e combinada à medicação nos quadros mais graves, ajudando também a prevenir recaídas. Reunimos um roteiro prático dessa abordagem no livro Vencendo a Depressão: Manual de Terapia Cognitivo-comportamental para Pacientes e Terapeutas (Artmed). Outra estratégia de terapia com boa evidência científica é terapia interpessoal (TIP).
3. Cuidados com o sono
A insônia é, ao mesmo tempo, sintoma e fator que agrava a depressão. Tratar o sono e adotar hábitos regulares de descanso faz parte do tratamento. Na prática, alguns hábitos simples ajudam a ter uma melhor noite de sono:
- Horários regulares, inclusive nos fins de semana. Deitar-se e levantar-se sempre por volta do mesmo horário, incluindo nos finais de semana, é uma das medidas mais eficazes para estabilizar o relógio biológico.
- À noite, reduzir as luzes e evitar telas nas duas horas antes de dormir, porque a luz das telas atrapalha o adormecer; de manhã, o contrário — expor-se à luz natural logo cedo ajuda a "acertar" o relógio do corpo para o dia.
- Cuidado com estimulantes no fim do dia. Café, chá preto, chimarrão e refrigerantes com cafeína atrapalham o sono quando consumidos à tarde ou à noite.
- A cama é para dormir. Evitar usar a cama para estudar, ver TV ou ficar no celular ajuda o corpo a associar aquele espaço ao sono, e não à atividade.
- Ambiente que convida ao sono — quarto escuro, silencioso e com temperatura agradável.
- Não levar as preocupações para a cama. Quando há algo pendente rondando a cabeça, uma estratégia simples é anotar para resolver no dia seguinte, em vez de tentar resolver deitado.
4. Mudanças no estilo de vida
A atividade física regular tem efeito antidepressivo comprovado. Somam-se a ela reduzir o álcool, manter uma rotina estável, buscar exposição à luz natural e cultivar o apoio social. São medidas complementares, que potencializam o tratamento.
Com avaliação cuidadosa e tratamento adequado, a depressão melhora na grande maioria dos casos. Quanto antes o tratamento começa, melhor tende a ser a recuperação.
Referências
- Lam RW, Kennedy SH, Adams C, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024. DOI: 10.1177/07067437241245384.
- Adelino MPM, Grossi JD, Nunes MV, Passos IC, et al. Brazilian Psychiatric Association Guidelines for the pharmacological treatment of Major Depressive Disorder. Braz J Psychiatry. 2026. DOI: 10.47626/1516-4446-2026-4911.
- Braga DT, Vivan A, Passos IC. Vencendo a Depressão: Manual de Terapia Cognitivo-comportamental para Pacientes e Terapeutas. Artmed; 2024.
Conteúdo escrito e revisado por Dr. Ives Cavalcante Passos. Última revisão em . Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individual.